O Brasil vive uma verdadeira revolução vertical. Se antes os arranha-céus eram privilégio de cidades como Balneário Camboriú, agora eles se espalham por diversas regiões do país, transformando o perfil urbano e refletindo uma nova era do mercado imobiliário.
O crescimento da verticalização no Brasil
Atualmente, o país conta com mais de 140 projetos de arranha-céus com mais de 100 metros de altura, sendo que metade deles ultrapassa os 150 metros, segundo dados do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH). Esse crescimento não se limita mais ao litoral de Santa Catarina; cidades como São Paulo, Fortaleza, Goiânia e Cuiabá também estão incorporando esses gigantes urbanos em seus horizontes.
São Paulo: novos marcos na verticalização
São Paulo, por exemplo, está prestes a inaugurar o Paseo Alto das Nações Torre 2, com 219 metros de altura, localizado no bairro de Santo Amaro. A conclusão está prevista para o final de 2025. Além disso, empreendimentos como o Visar, da AW Realty, com 145 metros, e o Epic Jardins by Pininfarina, com 170 metros, estão em construção nos Jardins, área nobre da cidade. Esses projetos não apenas alteram o skyline paulistano, mas também refletem uma mudança no perfil do comprador, que busca imóveis de alto padrão com vistas privilegiadas e localização estratégica.
Balneário Camboriú: a capital brasileira dos arranha-céus
Balneário Camboriú, em Santa Catarina, é reconhecida mundialmente por sua coleção de arranha-céus à beira-mar. O Yachthouse Residence Club, com 294 metros, é atualmente o edifício residencial mais alto do Brasil. No entanto, o Senna Tower, projetado para atingir 509 metros, promete superar esse recorde e se tornar o maior prédio residencial do mundo. A conclusão está prevista para 2032, e o projeto está sendo desenvolvido pela FG Empreendimentos em parceria com a Havan, do empresário Luciano Hang.
Fortaleza: a verticalização chega ao Nordeste
No Nordeste, Fortaleza se destaca com projetos como o Wind, da incorporadora Marquise, com 147 metros de altura. Localizado na Barra do Ceará, o empreendimento oferece vistas para o mar e está alinhado com a tendência de verticalização que busca otimizar o uso do solo e atender à demanda por imóveis exclusivos.
Goiânia e Cuiabá: novas fronteiras da verticalização
Goiânia também está investindo em arranha-céus, como o Complexo Orion, que inclui torres residenciais e comerciais com mais de 150 metros de altura. Em Cuiabá, o Edifício Eldorado Business Tower, com 141 metros, é um exemplo de como a verticalização está se expandindo para o Centro-Oeste.
Por que muitos brasileiros preferem apartamento?
A preferência por apartamentos no Brasil tem crescido nos últimos anos. Embora muitas pessoas ainda digam que sonham em morar em casa, as estatísticas mostram que
os apartamentos lideram nos números de vendas, especialmente nas grandes cidades.
Um estudo recente da Brain Inteligência Estratégica aponta que, entre os tipos de imóveis mais vendidos no país,
47% são apartamentos, enquanto casas em rua aparecem em segundo lugar. Isso mesmo: ainda que haja desejo por mais espaço e liberdade, na prática muitos optam por apartamentos pela facilidade, localização, custos mais acessíveis de manutenção e segurança.
Outro exemplo forte vem do Nordeste: em Recife, por exemplo, cerca
de 80% das pessoas que buscam imóveis procuram por apartamentos, seja para compra ou aluguel. Esse número alto reflete também a urbanização acelerada da região, falta de terreno disponível ou caro, e o apelo de estar perto de serviços, comércio e infraestrutura urbana.
Quais são os fatores que impulsionam essa preferência?
- Localização e conveniência – apartamentos geralmente ficam em áreas mais centrais, com acesso a transporte público, comércio, escolas etc. Esse ganho em mobilidade e praticidade pesa bastante, especialmente para quem trabalha em centros urbanos ou valoriza menores deslocamentos.
- Custos de manutenção mais baixos – comparados a uma casa, principalmente em lote grande, manter apartamento exige menos limpeza de área externa, menor gasto com jardinagem, portão, muros etc.
- Segurança – prédios têm portaria, controle de acesso, vizinhança próxima, vigilância etc., o que traz sensação de proteção, especialmente em cidades grandes.
- Oferta e financimento – há mais oferta de apartamentos, inclusive de tamanhos menores, com preços mais razoáveis ou escalonados; além disso, programas habitacionais e crédito tendem a contemplar mais imóveis verticalizados.
Desafios e inovações na construção de arranha-céus
Construir arranha-céus envolve desafios técnicos significativos. A engenharia precisa lidar com questões como a ação do vento, vibrações estruturais e conforto dos moradores. Empresas como a Talls Solutions, da FG Empreendimentos, têm se especializado em soluções para esses problemas, desenvolvendo tecnologias que garantem a estabilidade e o conforto dos edifícios.
A percepção pública e os desafios culturais
Apesar do avanço na construção de arranha-céus, a aceitação pública ainda enfrenta barreiras culturais. Segundo Gustavo Favaron, presidente do GRI Institute, há uma resistência à inovação no Brasil. Enquanto em cidades como Dubai e Nova York os arranha-céus são símbolos de modernidade, no Brasil muitas vezes são vistos com ceticismo.
Cláudio Carvalho, CEO da AW Realty, destaca que a construção de arranha-céus é mais complexa do que a de prédios de 20 andares e que a percepção de que eles são muito mais lucrativos não é correta. Ele explica:
“Parece que você vai fazer um prédio de 50 andares e vai dobrar o lucro. Não, a margem é sempre a mesma, porque o terreno é caro, a engenharia, o custo de construção fica muito caro. O prazo de obra é mais longo do que o normal, então isso torna a obra mais cara.”
Essa visão ressalta a necessidade de uma análise detalhada e realista dos custos e benefícios ao considerar a construção de arranha-céus, desafiando a ideia de que maiores alturas automaticamente resultam em maiores lucros.
A expansão dos arranha-céus pelo Brasil é um reflexo de uma transformação urbana que busca otimizar o uso do solo, atender à demanda por imóveis exclusivos e modernizar o perfil das cidades. Embora existam desafios técnicos e culturais a serem superados, o futuro da verticalização no país parece promissor, com projetos ambiciosos que colocam o Brasil no mapa global da arquitetura contemporânea.